Quando o problema não é a visita, mas quem recebe a visita
Chama atenção a palavra escolhida por Mauro Vieira: “ingerência”.
Não é uma palavra qualquer.
É grave.
É pesada.
E, por isso mesmo, exige coerência.
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Segundo o chanceler, a visita de Darren Beattie, assessor do governo Donald Trump para assuntos relacionados ao Brasil, ao ex-presidente Jair Bolsonaro, em ano eleitoral, pode configurar “indevida ingerência” dos Estados Unidos nos assuntos internos brasileiros. O alerta foi encaminhado ao STF depois que Alexandre de Moraes autorizou o encontro solicitado pelos advogados de Bolsonaro.
Até aí, o fato é esse.
Mas há um detalhe.
Desde quando conversar com liderança política da oposição passou a ser tratado como ameaça institucional automática? E mais: desde quando o Itamaraty descobriu, subitamente, os perigos da influência estrangeira sobre o debate interno brasileiro?
Porque, convenhamos, a tese só parece valer em certas ocasiões. Ou melhor: contra certas pessoas.
Bolsonaro não é um cidadão irrelevante. É ex-presidente da República. Lidera um campo político robusto. Tem peso eleitoral, influência pública e centralidade no debate nacional. Um assessor americano querer ouvi-lo pode ser politicamente desconfortável para o governo. Pode até ser inconveniente. Mas desconforto não é sinônimo de ingerência.
E é aí que a história complica.
Se a simples visita de um funcionário estrangeiro a uma figura política brasileira já acende o alarme da soberania, então seria preciso aplicar o mesmo rigor a toda a fauna diplomática que circula por Brasília, conversa com ministros, congressistas, juízes, lideranças partidárias, empresários, ONGs e ativistas. Ou alguém acredita, de boa-fé, que diplomacia internacional funciona apenas com chá, biscoito e neutralidade angelical?
Não funciona.
Diplomacia é influência.
Sempre foi.
Em qualquer capital séria do mundo.
O que distingue a prática legítima da ingerência indevida não é a mera existência do contato, mas seu conteúdo, sua finalidade e a reação institucional a ele. E, pelo que foi apresentado, o Itamaraty se apoia menos em prova de interferência concreta e mais em suspeita política. Pior: suspeita seletiva.
Agora compare.
Quando atores estrangeiros se aproximam de setores alinhados ao establishment brasileiro, o vocabulário costuma ser outro: cooperação, diálogo, fortalecimento institucional, defesa da democracia. Quando o contato envolve Bolsonaro, vira risco à soberania nacional. A régua muda. O princípio evapora. A conveniência entra em cena.
E há mais.
O próprio ofício ressalta que a embaixada americana só pediu reuniões com autoridades brasileiras depois do pedido de encontro com Bolsonaro. O chanceler usa isso como elemento de preocupação. Mas o dado também permite outra leitura, menos dramática e mais óbvia: a visita ganhou forma, a agenda foi sendo montada, e os contatos oficiais vieram em seguida. Isso basta para falar em ingerência? Ou basta apenas para alimentar uma narrativa politicamente útil?
A resposta parece clara.
O problema, no fundo, não é apenas diplomático. É institucional. O Itamaraty, ao levar esse tipo de ponderação ao STF com esse grau de ênfase, participa de um ambiente em que tudo que cerca Bolsonaro precisa ser revestido de excepcionalidade. Nada pode ser trivial. Nada pode ser normal. Tudo precisa soar como ameaça.
Mas democracia madura não deveria ter medo de conversa.
Nem de interlocução internacional.
Nem de oposição forte.
Deveria, isso sim, temer o uso elástico de conceitos graves para enquadrar seletivamente adversários políticos. Porque hoje se chama de “ingerência” uma visita. Amanhã, o que será? Uma reunião? Uma foto? Uma declaração?
No fim, sobra a impressão incômoda de sempre: certas instituições brasileiras não estão mais interessadas em estabelecer critérios gerais, mas em administrar exceções convenientes.
E quando a exceção vira método, a soberania já não está sendo protegida. Está sendo instrumentalizada.