Direção da emissora pública britânica deixa cargos após denúncias de viés político e edição distorcida de discurso do ex-presidente americano
A BBC, emissora pública do Reino Unido, enfrenta uma grave crise de credibilidade após ser acusada de editar de forma manipulada um discurso de Donald Trump em um documentário exibido pouco antes da eleição presidencial de 2024, que o reconduziu à Casa Branca.
As acusações resultaram na renúncia do diretor-geral Tim Davie e da chefe de reportagem Deborah Turness, que anunciaram suas saídas neste domingo (9). Ambos reconheceram que o episódio abalou a reputação da instituição e afirmaram que assumem a responsabilidade pelos erros editoriais.
Edição polêmica e acusações de manipulação
O documentário, que revisava a trajetória de Trump, foi criticado por editar falas de momentos diferentes de um discurso proferido em 2021, dando a entender que o então presidente havia incentivado a invasão do Capitólio.
De acordo com o consultor Michael Prescott, autor de um dossiê investigativo sobre a BBC, os editores cortaram a parte em que Trump pedia manifestações “pacíficas e patrióticas”, deixando apenas o trecho em que ele dizia:
“Nós vamos marchar até o Capitólio e eu estarei lá com vocês […]. E nós lutaremos. Nós lutaremos à beça.”
O dossiê afirma que a montagem induziu o público ao erro e reforçou uma narrativa politicamente enviesada contra Trump, omitindo informações relevantes que poderiam alterar a interpretação dos fatos.
Demissões e crise interna
Em um comunicado público, Tim Davie afirmou que, embora a BBC siga padrões rigorosos, “houve falhas que precisam ser reconhecidas”.
“O atual debate em torno da BBC News contribuiu para minha decisão. Eu acredito no trabalho que fazemos, mas devo assumir a responsabilidade quando erros acontecem”, declarou.
Já Deborah Turness, em carta aos funcionários, disse que a polêmica chegou a um ponto “que ameaça causar danos irreversíveis à imagem da BBC”.
“Embora erros tenham sido cometidos, quero deixar claro que alegações de viés institucional são errôneas”, afirmou.
Reações e críticas políticas
O episódio repercutiu em Londres e Washington. A Casa Branca, por meio da secretária de imprensa Karoline Leavitt, classificou a BBC como “100% fake news” e uma “máquina de propaganda”.
Entre os conservadores britânicos, a pressão também cresceu. O ex-primeiro-ministro Boris Johnson declarou que Davie “precisava se explicar ou renunciar”, acusando-o de viés esquerdista na condução editorial da emissora.
O dossiê de Prescott ainda aponta outros casos de parcialidade editorial, como uma cobertura anti-Israel na redação árabe da BBC e uma abordagem militante em temas de gênero, com suposta resistência em abordar pautas que desafiem o discurso progressista.
BBC sob questionamento público
Financiada por uma taxa anual obrigatória de 174,5 libras (cerca de R$ 1.225) paga por cada domicílio britânico, a BBC é frequentemente cobrada por imparcialidade e transparência em suas produções.
O apresentador Nick Robinson, um dos nomes mais tradicionais da emissora, reconheceu que as críticas ao padrão editorial são “genuínas e necessárias”, mas alertou para a possibilidade de uma “campanha política para enfraquecer a BBC”.
O escândalo reacende o debate sobre o limite entre jornalismo e ativismo político — especialmente quando veículos públicos interferem em narrativas eleitorais internacionais.