Dono do Choquei, preso por movimentar R$ 1,63 bilhão, era peça útil na máquina de propaganda petista
Existe um tipo de coincidência que não é coincidência. É conveniência.
Raphael Sousa Oliveira, dono do perfil de fofocas “Choquei”, foi preso pela Polícia Federal nesta quarta-feira (15) em uma operação contra lavagem de dinheiro que movimentou a bagatela de R$ 1,63 bilhão. Um bilhão e seiscentos milhões de reais. O número impressiona. Mas o que deveria chocar de verdade é outra coisa.
Receba no WhatsApp as principais notícias do dia em primeira mão
Antes de cair nas mãos da PF, o Choquei já tinha caído nos braços do governo.
O perfil — que se vendia como entretenimento e fofoca — coleciona um histórico de bajulação ao PT que faria corar qualquer assessoria de imprensa oficial. Diálogos que pareciam ensaiados. Postagens que emplacavam versões governistas como se fossem notícia. Engajamento sob encomenda com figuras do poder.
O caso mais emblemático? A famosa “taxação das blusinhas”.
Quando o governo tentou convencer o país de que a nova taxa sobre compras internacionais não recairia sobre o consumidor, o Choquei entrou em cena para dar palco à narrativa. Publicou que a taxa não atingia o consumidor e ainda abriu espaço para a primeira-dama Janja reforçar a lorota de que a cobrança seria “só para empresas”.
Não demorou. O diálogo entre Janja e o perfil de fofocas ganhou o selo “Isto é falso!” no X. Porque, claro, a conta caiu onde sempre cai: no bolso do consumidor final. Quem se surpreende?
Mas há mais.
Edson Jr, um dos quadros do Choquei, já recebeu homenagem de vereador petista. Foi chamado para encontro com a primeira-dama. O perfil engajou entusiasticamente na indicação de Flávio Dino ao STF, com comentários do tipo “merecimento”. O Ministério da Saúde registrou 17 interações com o perfil — embora negue qualquer contrato formal.
Dezessete interações. Sem contrato. De graça. Por pura admiração, certamente.
Agora compare: quando perfis de direita fazem postagens alinhadas a qualquer governo, são imediatamente rotulados como “milícia digital”, “máquina de desinformação”, “ameaça à democracia”. Investigações são abertas. Inquéritos se multiplicam. CPIs são convocadas.
Quando o perfil é aliado do governo correto, o nome muda. Não é milícia. É “influenciador”. Não é propaganda. É “engajamento”.
A pergunta que ninguém faz é simples: quanto dessa proximidade entre o Choquei e o governo era orgânica — e quanto era transacional?
Um perfil que movimentou R$ 1,63 bilhão em operações suspeitas não é um adolescente fazendo memes no quarto. É uma operação sofisticada. E essa operação sofisticada, por pura coincidência, dedicava tempo e energia para defender políticas do governo, bajular figuras do poder e desmentir críticas à gestão federal.
Coincidência, repito. Sempre coincidência.
O Estado brasileiro tem uma relação doentia com a narrativa. Não lhe basta governar — precisa controlar o que se diz sobre o governo. E quando essa obsessão por controle encontra operadores dispostos a lavar reputações com a mesma desenvoltura com que lavam dinheiro, o resultado é previsível: um ecossistema de propaganda travestido de entretenimento, financiado sabe-se lá por quem, com acesso direto ao poder.
Raphael Sousa Oliveira agora responde por lavagem de dinheiro. Mas a lavagem de reputação que seu perfil fazia — essa, por enquanto, segue impune.