Empresário foragido preparou anexos durante semanas e aceitou devolver milhões ao Estado como parte da negociação
O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sergio de Oliveira e Costa, terá nas mãos a decisão final sobre uma delação premiada que pode ampliar significativamente o alcance da megaoperação Carbono Oculto. O chefe do Ministério Público paulista, que deve ser reconduzido ao cargo nesta sexta-feira (10), receberá os documentos preparados pelo empresário Roberto Leme, o Beto Louco.
Anexos prontos e dezenas de celulares entregues
Já finalizados e protocolados junto ao Ministério Público de SP, os anexos da proposta de delação premiada de Beto Louco incluem dados de corroboração e dezenas de aparelhos celulares que o empresário utilizava. Segundo seus advogados, o material permitirá aos investigadores extrair provas que comprovam os crimes relatados.
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Nos documentos, o empresário se dispõe a revelar o envolvimento de servidores públicos e magistrados do Estado no bilionário esquema de fraudes fiscais, sonegação e lavagem de dinheiro que deu origem à operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025.
Semanas de preparação no exterior
Foragido, Beto Louco dedicou as últimas semanas — de domingo a domingo, conforme relatou a interlocutores — a reuniões com seus advogados no Brasil para elaborar os anexos. Esses documentos preliminares funcionam como uma espécie de rascunho apresentado à promotoria sobre o conteúdo potencial da colaboração.
Um ponto considerado o maior obstáculo em negociações desse tipo também foi superado: o empresário concordou em pagar milhões como forma de ressarcimento ao Estado pelos crimes que cometeu. É justamente nessa etapa que a maioria das delações costuma travar.
Colaboração sem foro privilegiado em Brasília
A proposta entregue ao MP paulista não envolve pessoas com foro privilegiado na capital federal. Essa delimitação contrasta com a tentativa anterior de Beto Louco: no ano passado, a PGR (Procuradoria-Geral da República), sob comando de Paulo Gonet, recusou uma delação premiada do empresário que mencionava políticos, entre eles o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Relação com Alcolumbre e a Copape
À época, veículos de imprensa revelaram a ligação entre Beto Louco e o parlamentar. O empresário teria presenteado Davi Alcolumbre com canetas mounjaro e um show de Roberto Carlos no Amapá. Em troca, buscava o apoio do presidente do Senado para reverter decisões da ANP (Agência Nacional de Petróleo) desfavoráveis à Copape, empresa de petróleo de sua propriedade. Alcolumbre nega qualquer envolvimento.
Crime organizado infiltrado na economia formal
A operação Carbono Oculto investiga a infiltração do crime organizado em negócios regulares da economia formal, como postos de gasolina, padarias e fintechs. O esquema bilionário descoberto pela megaoperação envolve fraudes fiscais, sonegação e lavagem de dinheiro.
Possível cenário de ganha-ganha
Advogados familiarizados com a negociação avaliam que a delação premiada pode beneficiar ambos os lados: Beto Louco obtém as vantagens legais previstas para colaboradores, enquanto o Estado recupera recursos milionários desviados e preserva os empregos nos setores em que as empresas do esquema continuariam operando — desta vez, de forma regular.
